sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ricardo Darín para Sangue Latino ❤

Assisti alguns filmes com Ricardo Darín e sem dúvida é um ator espetacular. “O Segredo dos seus olhos” e “Relatos Selvagens” são ótimos!
Hoje assisti a entrevista do ator argentino para o programa “Sangue Latino” do Canal Brasil e senti um alívio muito grande com sua fala sobre erros cometidos e a “ditadura do acerto” que temos vivido. Mostrou-se um homem raro, sensível, inteligente e corajoso por expor seus sentimentos dessa forma.
Darín sendo incrível! Link aqui e transcrição na integra aqui:


“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de 20 casas de pau a pique e telhados de sapé construídas na beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las, era preciso apontar o dedo. Todos os anos, lá pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tímbalos, mostrava as novas invenções”
Trecho de Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez


Eric Nepomuceno: No mundo de hoje, você acha que ainda existe espaço para as utopias?

Ricardo Darín: Sim. Sim, porque, cada vez mais, teremos mais espaço para as utopias, ou oportunidades, porque teremos que buscar os espaços, que, cada vez mais, serão mais restritos, mas a necessidade e a oportunidade existirão. Estamos cercados por eletricidade, estamos cercados pela era digital. Necessariamente, assim como ocorreu em quase todas as etapas, teremos que voltar a certas origens para podermos nos redescobrir e entender que tudo está muito bem, que é fantástico em muitos aspectos. Em termos científicos e de comunicação, com todos os avanços tecnológicos, mas a sensação de que vamos perdendo espaço em termos de contato pessoal, o cara a cara, e acho que, necessariamente, teremos que encontrar os lugares, os espaços e as oportunidades para podermos divagar e poder resgatar as utopias.

Tudo está muito condicionado ao resultado. Tudo está muito condicionado à efetividade, ao acerto. Por exemplo, nossas gerações jovens atuais estão condicionadas a uma pressão permanente, que tem sido exercida, voluntária ou involuntariamente, sobre a juventude, no sentido de que devem acertar, devem ser bem-sucedidos em tudo o que fizerem. Eu detesto essa visão. Detesto a ideia de não poder errar, de não poder aprender com os erros, de não poder falhar, e se levantarmos, nos recuperarmos e seguir em frente, porque esse é um dos motores do templo humano. Errar.

 

EN: Como você lida com os erros?

RD: Eu cometo muitos erros, muitos erros. Sempre foi assim, e não deixarei de cometê-los. Eu erro. Eu cometo erros, às vezes, de forma leve, outras vezes, por sorte poucas, de forma contundente. Eu desfruto da oportunidade que dei a mim mesmo, de pedir perdão, de me colocar, de poder corrigir um erro. Estou permanentemente sob suspeita, permanentemente duvido de mim, inclusive de coisas que, quando tinha 20 anos, tinha certeza de que eram absolutas. Acho que o mundo está permanentemente em movimento, estamos tentando descobrir quem somos, o que estamos fazendo neste planeta. Esta espécie extraordinária que conformamos nos dá sinais de excelência em muitos aspectos e, em muitos outros, não. Então eu acho que, nesse devir, estamos constantemente tentando entender o que estamos fazendo aqui, o que vamos fazer com tudo isto.

 

EN: Ricardo, você acredita no destino?

RD: Eu tive uma criação muito paternalista, muito apegada, muito ligada ao meu pai, que era um homem que falava muito de destino. Por isso, fui criado e me desenvolvi com frases, conceitos, ideias e visões dele que sustentavam de uma forma muito ferrenha, porque ele se expressava bem, escrevia bem. Então falava muito do destino, de que tudo está escrito, de que tudo vai acontecer, de certa forma, da mesma maneira. Mas eu rejeito um pouco isso e tento acreditar que, embora provavelmente seja verdade que como espécie, como comunidade, como sociedade global estamos sendo levados até determinados desígnios ou questões predestinadas. Me nego a aceitar a ideia de que não é importante o que cada um de nós faça, em função não só do nosso âmbito, do nosso núcleo, mas também da projeção que isso possa ter. Confio, infantilmente, muitas vezes, em que alguém possa nos ajudar a ter um pouco mais de iluminação, de claridade, alguém que, de repente, decida não aceitar todas as regras estabelecidas e decida nos promover, nos estimular a revisar cada uma das regras que foram sendo estabelecidas. Portanto, nesse sentido, como é lógico por contraposição, acredito muito no que cada um de nós pode fazer.

 

EN: Um grande poeta argentino, Juan Gelman, tem um poema cujo título é uma pergunta: “Amor que serena, termina?”

RD: Amor que serena, termina? Não sei se o amor termina, não sei exatamente o que é o amor, mas tenho a sensação de que assim como muitos seres vivos, vão se transformando, vão se autorreciclando e se transformando em outras coisas, mas não sei se termina.

 

“No terceiro dia de chuva tinham matado tantos caranguejos dentro de casa que Pelayo teve de atravessar o seu pátio inundado para atirá‑los ao mar, pois o bebé recém‑nascido tinha passado a noite com febre e pensava‑se que era por causa da pestilência. O mundo estava triste desde terça‑feira. O céu e o mar eram uma única e mesma coisa de cinza e as areias da praia, que em Março resplandeciam como poeira de luz, tinham‑se transformado numa papa de lodo e mariscos podres. A luz era tão fraca ao meio‑dia que, quando Pelayo regressava a casa depois de ter deitado fora os caranguejos, teve dificuldade em ver o que era que se movia e gemia no fundo do pátio. Teve de aproximar‑se muito, para descobrir que era um homem velho, que estava caído de borco no lodaçal e que, apesar dos seus grandes esforços, não podia levantar‑se, porque lho impediam as suas enormes asas.”

Trecho de Um senhor muitos velho com umas asas muito grandes de Gabriel Garcia Márquez

EN: Ricardo, quais são suas perdas?

RD: São muitas, vamos perdendo e ganhando. Não gosto muito de fazer balanços. Portanto, não me dou muito bem com contas e essas coisas, mas, suponho que as perdas, tal como as interpreto, sejam aquelas irrecuperáveis. Já tive muitas perdas, como todos aqueles que têm cabelos grisalhos e atravessaram várias décadas. Não tenho certeza de que a dor é uma perda, às vezes, acho que é um capital, mas as ausências são perdas, as ausências físicas, as ausências atmosféricas são perdas. As perdas de oportunidades também são perdas. Nesse aspecto, não sou um grande perdedor de oportunidades, sempre soube aproveitá-las muito bem, o que me torna um ser quase suspeito. Muitos dizem que tenho um ótimo olho para ver o que tenho ou não que fazer. Acho isso engraçado, porque não sigo nenhuma regra ou norma. Simplesmente minhas entranhas me dizem se devo ou não fazer determinada coisa. Mas tive muitas perdas. Perco muita água, porque sou muito chorão. Choro muito. Não tenho vergonha de chorar. Também rio muito. Sou muito exagerado com as emoções. Mas o primeiro impacto que sinto com a sua pergunta é, pela perda de seres queridos, de seres valiosos.

EN: Você é ator de teatro, que é uma arte efêmera. Uma noite, e a sessão acabou; outra noite, será outra sessão. Como você lida com isso?

RD: Essa é a melhor parte. Esse é o grande presente do teatro, ter que enfrentar um público com um plano minimamente predeterminado, ou seja, realizar uma sessão, uma representação na qual vamos fazer um jogo combinado. Existem vários jogos combinados. Um é que vamos ser os atores, o elenco, no palco, vamos jogar um jogo no qual representaremos outras pessoas, imersos em uma história que não nos pertence, de alguma forma. E o público jogará esse jogo aceitando certas regras. Mas ninguém ainda conseguiu descobrir exatamente por que não conseguimos deixar de sentir a vertigem e o perigo que são geradas neste mesmo evento. Ou seja, todos nós estamos sob esse mesmo teto envolvidos por essa atmosfera, tentando jogar esse jogo compartilhado de aceitação e entrega, no qual ocorre uma troca de energia muito poderosa, da qual pouco se fala. Ninguém conseguiu ainda descobrir como lidar para enfrentar a vertigem e o perigo que isso significa. O teatro nunca será substituído. O teatro é perigoso. Efêmero no tátil. Efêmero que concebemos como algo a acumular. Não tenho tanta certeza que seja... Em algum lugar de todos nós, fica algo do que ocorreu nessa noite.

EM: Do que você sente falta?
RD: Sinto falta de jogar futebol. Muita. Muita mesmo, porque gostava muito, mas, por um problema nos ligamentos, não posso jogar, a não ser que opere, o que não farei. Sinto falta de conversar com o meu pai. Nossas conversas eram muito impactantes. Ele jogada um jogo muito estranho comigo desde pequeno, que consistia em me revolucionar, em propor enigmas ou perguntas e jogar até altas horas da noite tentando encontrar juntos uma possível resposta. E hoje que tenho filhos grandes, com os quais tenho conversas, discussões e polêmicas até altas horas da madrugada, o tenho permanentemente presente, e sempre penso como seria bom se ele estivesse aí. Possivelmente se ele estivesse em cada uma dessas discussões, meu papel seria outro, porque não teria deixado de ser filho mesmo sendo pai. De alguma forma deixo um pouco de ser filho e só exerço o papel de pai. Então, muitas vezes me vejo perdido nesse papel. Não sei se assimilei completamente a ideia de ter deixado de ser filho. Tenho um monte de perguntas que gostaria que respondessem, e me vejo compulsivamente, obrigado a tentar encontrar respostas ou a sugerir opiniões. Por isso, sinto muita falta daquelas conversas.

EM: Como você lida com a solidão?
RD: Eu adoro a solidão. Sou um adorador da solidão. Por alguma questão ocidental, fomos empurrados a acreditar que a solidão é um inimigo. Então, permanentemente, os seres, seja como for, custe o que custar, tentamos não ficar sozinhos. E perdemos uma grande oportunidade. O diálogo interno, a reflexão, a meditação, a investigação de nós mesmos, enfrentar nossos próprios medos, inclusive nossas certezas, quase sempre ocorrem em atmosferas de solidão. Como sou notívago, estou treinado e acostumado a conviver com minha solidão. Muitas vezes, tenho que atravessar as noites só, porque minha mulher está cansada e já foi dormir porque levanta cedo, e meus filhos têm que fazer suas coisas, e eu me reservo o direito de ficar sozinho de noite, porque é o momento no qual estou mais próximo de mim mesmo. Eu me descubro a mim mesmo durante o dia, respondendo exigências urbanas e cidadãs, mas, de noite, em solidão, é quando estou mais próximo de relembrar quem sou.

EM: Vai acontecer comigo, vai acontecer com você, chegará a hora da viagem sem volta. Se você pudesse levar algo, o que levaria?
RD: Eu acho que, para onde vamos, se é que vamos para algum lugar, levar alguma coisa não servirá para nada. Como meu pai dizia, temos que estar com a bagagem o mais leve possível. Ele defendia que a propriedade não existe, que tudo o que achamos que é nosso, antes, foi de outro e, amanhã, também será de outro. Então a propriedade não existe. Desfrutamos do privilégio do empréstimo temporário. Eu acho que o melhor, o máximo a que podemos aspirar é ficar na alma dos seres com os quais tivemos contato, nos nutrimos e sentimos essa troca, esse maravilhoso ato de generosidade recíproca de nos amarmos, nos tocarmos dizendo que nos amamos, nos cuidando, nos protegendo e nos darmos alegrias. Acho que é o máximo que podemos aspirar. Não levaria nada, porque acho que não vou a lugar nenhum. Acho que o que posso desejar é desaparecer, me desintegrar, e, se tiver muita sorte e conseguir que alguém cuide de minhas cinzas, do que restar, as coloque debaixo de um vaso onde tenho um bonsai que me preocupa muito, porque o abandonei por 10 dias, nos quais pegou sol o tempo todo e quase secou. Todos falaram que tinha morrido, que não dava para fazer nada, mas coloquei água, tirei do sol e coloquei na sombra, em ambiente úmido e, magicamente, rebrotou. Portanto, se isso acontecer em um tempo mais ou menos prudente, digamos, nas próximas horas, vou pedir que coloquem minhas cinzas debaixo do bonsai, porque estou muito atento e concentrado nesse bonsai. Vou revivê-lo, lá de cima ou daqui debaixo.


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